AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.
E os que leêm o que escreve,
Na dor lida sentem bem
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de roda
Que se chama coração.
"ISTO"
Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo.Não.
Eu simplesmente sinto com o coração
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
é como um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é
Sentir?Sinta quem lê!
Poemas retirados do livro "POESIAS de Fernando Pessoa"