AUTOPSICOGRAFIA





O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

a dor que deveras sente.



E os que leêm o que escreve,

Na dor lida sentem bem

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.



E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de roda

Que se chama coração.





"ISTO"





Dizem que finjo ou minto

Tudo o que escrevo.Não.

Eu simplesmente sinto com o coração

Eu simplesmente sinto

Com a imaginação

Não uso o coração.



Tudo o que sonho ou passo,

O que me falha ou finda,

é como um terraço

Sobre outra coisa ainda.

Essa coisa é que é linda.



Por isso escrevo em meio

Do que não está ao pé,

Livre do meu enleio,

Sério do que não é

Sentir?Sinta quem lê!



Poemas retirados do livro "POESIAS de Fernando Pessoa"





Amor é fogo que arde sem se ver

É ferida que doi e não se sente

É um contentamento descontente

É dor que desatina sem doer

É um não querer mais que bem querer



é solitário andar por entre a gente

é nunca contentar-se de contente

É cuidar que se ganha em se perder

É quere estar preso por vontade

É querer estar preso por vontade

É servir a quem vence, o vencedor,

É ter com quem nos mata, lealdade

Mas como causar pode ser favor

Nos corações humanos amizade

Se tão contrário a si é o mesmo AMOR?



Camões,séc. XVI